Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense produziram um relatório detalhando a violência política de gênero sofrida por parlamentares mulheres nas plataformas digitais durante a última legislatura.
O estudo analisou, ao longo de seis meses, ataques feitos no Twitter, Facebook, Instagram e Youtube contra 79 deputadas federais e 12 senadoras.
De acordo com o relatório Mapa da Violência Política de Gênero em Plataformas Digitais, no período de tempo analisado foram encontradas mais de 4 milhões de mensagens. Cerca de 9% delas, ou seja, 360 mil, traziam alguma ofensa.
Foi no Twitter que se encontrou a maior quantidade de conteúdo violento: cerca de 24%, praticamente uma em cada quatro, das postagens analisadas continham violência. Mas foi no Facebook onde se encontrou os maiores índices de engajamento, ou seja, os posts violentos tiveram maior visibilidade.
O insulto, a invalidação e a crítica negativa são as principais formas de ataque, somando mais de 90% das mensagens. A sátira e o humor provocativo representam 30% das mensagens.
Uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, Letícia Sabbatini destaca que o impacto das ofensas não é apenas pessoal, contra a vítima especificamente, mas também na qualidade da democracia brasileira. Ela também explica o objetivo dessas mensagens:
“A violência discursiva, que é o tipo analisado nesse relatório, tende a ser mais sutil porque, tirando algumas exceções, geralmente é uma violência mais camuflada. Ainda mais por ser online, existe um entendimento na sociedade de que aquilo ali não vai afetar os seus alvos, mas afeta sim e o objetivo é justamente esse: afetar essas mulheres para afastá-las desse lugar que supostamente não é delas, mesmo que elas tenham sido democraticamente eleitas.”
A motivação dos ataques foi, principalmente, ideológica. 22,3% das postagens continham ofensas direcionadas a partidos, alianças ou espectro político ideológico. As parlamentares de esquerda são duas vezes mais atacadas que as de direita.
Letícia Sabbatini ressalta o cenário de polarização e radicalização do país.
“Você ataca determinada deputada porque ela é de determinado partido, porque ela defende determinado projeto de lei, porque ela apóia determinado político, mas ao invés de atacá-la no campo das ideias, argumentando, promovendo uma discussão que pode ter discordâncias e ser saudável, você ataca aquela mulher no campo pessoal, você fala do corpo dela, da família, da capacidade intelectual.”
A deputada a receber mais ofensas foi Talíria Petrone (PSOL-RJ), seguida da então deputada Dayane Pimentel e da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
Segundo Talíria Petrone, o estudo constata que “as principais plataformas digitais viraram arenas de disseminação do discurso de ódio e da desinformação”. Ela também destacou que o assassinato de Marielle Franco ocorreu há cinco anos, portanto a violência política de gênero não é novidade.
De acordo com a pesquisadora Letícia Sabbatini, um avanço no combate à violência política contra as mulheres foi a lei aprovada no Congresso (Lei 14.192/21) que estabelece normas para prevenir e combater a prática durante as eleições e no exercício de direitos políticos e funções públicas.
A legislação incluiu no Código Eleitoral o crime de assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar, por qualquer meio, candidata a cargo eletivo ou detentora de mandato eletivo, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou de dificultar a sua campanha eleitoral ou o desempenho de seu mandato eletivo.
A pena é de reclusão, de 1 a 4 anos, e multa.
Fonte: Radio câmara.

